domingo, 26 de outubro de 2014

Poema Se

POEMA  “SE” , DE RUDYARD KIPLING
Versão livre de Félix Bermudas



Se podes conservar o teu bom senso e a calma,
Num mundo a delirar, pra quem o louco és tu;
Se podes crer em ti, com toda a força d´alma,
Quando ninguém te crê;
Se vais faminto e nu,
Trilhando sem revolta um rumo solitário;

Se à torva intolerância, à negra incompreensão,
Tu podes responder subindo o teu Calvário.
Com lágrimas de amor e bênçãos de perdão;

Se podes dizer bem de quem te calunia;
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor,
Mas sem a afetação de um santo que oficia,
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor;
Se podes esperar sem fatigar a esperança;

Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho;
Fazer do pensamento um Arco de aliança,
Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho;

Se podes encarar com indiferença igual,
O Triunfo e a Derrota – eternos impostores;
Se podes ver o Bem oculto em todo o mal
E resignar, sorrindo, o amor dos teus amores;

Se podes resistir à raiva ou a vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega, eivadas de peçonha,
Com falsas intenções que tu jamais lhe destes;

Se podes arriscar todos os seus haveres
Num lance corajoso, alheio ao resultado,
E calando em ti mesmo a mágoa de perderes,
Voltas a palmilhar todo o caminho andado;

Se podes ver por terra as obras que fizeste,
Vaiadas por malsins, desorientando o povo,
E sem dizer palavra, e sem um termo agreste
Voltares ao princípio, a construir de novo;

Se podes obrigar o coração e os músculos
A renovar o esforço, há muito vacilante,
Quando já no teu corpo, afogado em crepúsculos,
Só existe a Vontade a comandar “ Avante!”

Ou vivendo entre os Reis conservas a humildade;
Se, vivendo entre o povo, és virtuoso e nobre,
Se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre
São iguais para ti, à luz da Eternidade;

Se quem conta contigo encontra mais que a conta;
Se podes empregar os sessenta segundos
De um minuto que passa, em obra de tal monta
Que o minuto se espraie em séculos profundos;

Então, ó Ser Sublime, o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os Reis, os tempos, e os espaços,
Mas, ainda para além, um novo sol rompeu,
Abrindo um infinito ao rumo dos teus passos;

Pairando numa esfera acima deste plano,
Sem recear jamais que os erros te retomem,
Quando já não houver em ti que seja humano,
Alegra-te meu filho; então serás um Homem.

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